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Visita ao Rio Grande do Sul: Todos os Lulas numa viagem só
30/07/2010
Equilibrando-se no fio invisível que separa os atos administrativos da ação política, o presidente Lula exibiu-se na 31ª viagem ao Rio Grande como uma síntese dos personagens que incorpora diante de cada plateia.
Partiu a agenda em dois blocos, para não arranjar confusão com a Justiça Eleitoral: à luz do dia, o presidente atrelado à liturgia do cargo, sem perder o bom humor; depois do anoitecer, o cabo eleitoral número 1 de Dilma e de todos os candidatos do PT, estrela do comício que reuniu milhares de militantes no Gigantinho.
Vestindo um terno preto, mas sem gravata, Lula comandou na Usina do Gasômetro, durante quase duas horas, o show do executivo realizador, distribuindo boas notícias para o Rio Grande do Sul.
Sentado na primeira fila com o prefeito José Fortunati (PDT) a sua direita e o ex-governador Olívio Dutra do lado esquerdo, cercado de prefeitos e com cinco ministros no palco e um em Estrela, interagindo pelo telão, Lula assistiu à assinatura de documentos que se traduzirão em obras no valor de mais de R$ 1,7 bilhão. Era o Lula presidente.
Duas das obras mais esperadas estavam no centro da programação: a duplicação da BR-116, entre Eldorado do Sul e Pelotas, e da BR-386 no trecho Tabaí-Estrela. Para agradecer pela duplicação da BR-116 obra de R$ 968 milhões com conclusão prevista para dezembro de 2013, o prefeito de Canguçu, Cássio Mota (PP), puxou sua melhor voz de locutor, apresentou sua cidade como “capital da agricultura familiar” e fez uma ode ao governo Lula.
Com Fortunati o governo federal assinou contratos para obras da Copa no valor de R$ 480 milhões, sendo R$ 53 milhões de contrapartida da prefeitura. No pacote de bondades para os municípios, obras de drenagem em Rio Grande e Novo Hamburgo, casas para Bento Gonçalves e São Leopoldo. O prefeito Roberto Lunelli (PT) prometeu a Lula uma garrafa de vinho para cada casa inaugurada em Bento Gonçalves.
- Vai preparando a produção – disse Lula.
No discurso, o presidente comentou que, como são 420 casas já contratadas, terá vinho pelo resto da vida.
O comunicador
O discurso no Gasômetro durou 34 minutos. De improviso, medindo as palavras para não escorregar nas restrições da Lei Eleitoral, incorporou o espírito do comunicador que se revela sempre que segura um microfone. Fez piada, debochou dos cientistas políticos, dizendo que é uma profissão sem sentido porque “a política é a arte do óbvio”, ironizou os jornalistas que fazem críticas ao governo e prometeu voltar ao Rio Grande do Sul para pelo menos mais dois compromissos: uma visita a Rio Grande e uma caminhada, de tênis, de ponta a ponta pelos 1,8 mil metros do túnel de Morro Alto, em Maquiné nem que, ao terminar, caia de infarto ou de cansaço.
– Eu sei que o túnel já está pronto. Falta só iluminar o desgramado (risos), mas parou seis meses. Vocês sabem da história. Por causa de uma perereca (risos). Seis meses! Porque acharam uma perereca que achavam que estava em extinção – disse.
A história da perereca que atrapalhou uma obra é verdadeira, mas foi no Rio. O túnel da BR-101 não teve qualquer problema de licenciamento ambiental, mas a plateia riu de qualquer forma, mais pelo tom do que pelo conteúdo de crítica à lentidão dos órgãos responsáveis pela concessão de licenças para obras.
O torcedor
Entre o Gasômetro e o Beira-Rio, o Lula torcedor foi se aninhando na alma do presidente. Ele, que sempre se declarou colorado, conversou com dirigentes e jogadores, pôs as duas mãos numa caixa com cimento fresco para deixar a marca de sua passagem pelo estádio e descerrou uma placa.
No gramado, Lula citou pela primeira vez o nome de Dilma desde que havia desembarcado em Porto Alegre. Citou de passagem, ao contar como tinha nascido o programa Minha Casa, Minha Vida. Disse que precisou insistir com os ministros da área econômica para fazer um programa de construção de mais de 1 milhão de casas, à época considerado inviável.
O militante
O helicóptero já estava estacionado na outra ponta do campo. Do alto, a caminho de Santa Cruz do Sul, o presidente teve uma visão panorâmica do estádio que receberá os jogos da Copa de 2014, com seu apêndice, o Gigantinho, para onde voltaria horas depois, transmutado em militante político, para o comício ao lado de Dilma, Tarso Genro, Paulo Paim e dezenas de candidatos da aliança Unidade Popular pelo Rio Grande.
(ZH)
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